terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Analistas: ganância e despotismo são fontes da revolta árabe

do AFP/Terra (31.01.2011)

Os povos árabes estão se rebelando contra dirigentes "corruptos" e "arrogantes", acusados de administrar o Estado como se fosse uma propriedade particular, e contra um modelo que combina a "abertura selvagem dos mercados e um despotismo medieval", estimam analistas.

Ao examinar as causas da onda de manifestações que abalam os países árabes, Bourhane Ghalioune, diretor do Centro de Estudos Árabes da Sorbonne de Paris, destaca a existência de uma "elite corrupta, apoiada pelos países ocidentais".

"Seu único estímulo é a acumulação de riquezas, quando seus predecessores exibiam uma vontade de mudar a vida dos mais pobres", indica Ghalioune.

"Além disso, os dirigentes que se agarram ao poder há 30 anos querem que a sucessão ocorra em família, o que a população percebe como uma provocação", afirma Ghalioune, professor de sociologia política, de origem síria.

Na Síria, por exemplo, Bashar al Assad sucedeu o pai, morto no ano 2000, enquanto Hosni Mubarak deseja transmitir o poder ao filho Gamal no Egito.

A queda do presidente tunisiano Zine El Abidine Ben Ali, após 23 anos no poder, e a onda de protestos sem precedentes que Mubarak agora enfrenta simbolizam "o fracasso de um modelo que combina uma abertura selvagem para os mercados a um despotismo medieval", destaca o catedrático da Sorbonne.

"As regiões do Oriente Médio e do norte da África são as mais repressoras do mundo, onde 16 de 20 países podem ser classificados como autoritários", explica Ghalioune, referindo-se às categorias estabelecidas pela Economist Intelligence Unit (EIU).

Iraque, Líbano, a Autoridade Palestina e Israel são considerados "regimes híbridos", e todos os demais são catalogados como autoritários.

Todos os países estão situados na metade inferior do tabuleiro mundial, que inclui 167 países.

Outro catedrático, Ghassan Salamé, professor de Ciências Políticas em Paris, fala em uma evolução calamitosa nos últimos 30 anos, embora o mundo árabe esteja familiarizado com a tirania desde a descolonização.

"Burguiba e Bumedian viviam de forma austera e não consideravam o Estado como sua propriedade", afirma Salamé.

Habib Burguiba, pai da independência tunisiana, governou durante 30 anos a partir de 1957, e Huari Bumedian presidiu a Argélia de 1965 a 1978.

Para Salamé, "nos anos 70, esses regimes começaram a se voltar para o neoliberalismo, utilizando-o para seu proveito, e a governar de forma corrupta, apoderando-se de setores inteiros da economia".

A revolta nasceu da rejeição a uma minoria que enriquece enquanto a maioria vive na pobreza, e reivindica a liberdade de expressão.

"As sociedades árabes estavam a ponto de explodir há anos. Que a faísca tenha saltado na Tunísia e o fogo tenha se espalhado pelo Egito foi uma coisa do acaso", argumenta Paul Salem, diretor do Centro Carnegie para o Oriente Médio, com sede em Beirute.

"O mais notável nestas revoltas é que as metas que mobilizam milhares de pessoas na Tunísia e no Egito são os direitos humanos e civis, a democracia social e a justiça econômica", diz Salem.

"Trata-se de um programa democrático, não ideológico", destaca.

"Nos últimos 30 anos, a única oposição verdadeira aos regimes autoritários era o movimento islâmico. Mas, na realidade, os movimentos no Egito e na Tunísia conseguiram em poucas semanas o que os partidos islâmicos não conseguiram em décadas".

"Isso prova que a democracia tem atualmente uma ressonância mais potente que o islamismo, o nacionalismo árabe ou as ideias de esquerda", conclui Salem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário